Discurso pronunciado pelo Professor e Presidente da Academia Alagoana de Letras, Ib Gatto Falcão, na solenidade de inauguração da Bibllioteca Governador Lamenha Filho, a 28 de julho de 2000

Abaixo, as fotos comemorativas poderão ser vistas


Senhores

A 12 de março de 1971, a Academia Alagoana de Letras, recebia, como doação do Governo do Estado de Alagoas, a posse de sua casa própria, após uma longa e difícil jornada de 52 anos.

Foram, Governo Municipal e Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, os senhorios amáveis desta hoje centenária casa própria. E os louvores, sobre o ato respeitável de superior compreensão dos encargos do poder público, confluíram na pessoa do Governador Lamenha Filho, autorizando a honorável providencia.

A 4 de maio, na oportunidade da primeira reunião ordinária na nova sede, retornam os aplausos que o saudoso Presidente José Maria de Melo com efusão transmitiu ao homenageado, qualificando-o da melhor forma e referindo-se à majestade da benfazeja doação.

O discurso do Chefe do Governo, agradecendo as homenagens recebidas, foi primoroso, calcado em estilo terço e sublimado, falando de poetas e sonhadores e revelando uma faceta não conhecida do proveitoso consórcio das letras com atividade pública e política. Falou emocionado de uma longa caminhada "de mísero mortal nas tertúlias de deuses benevolentes" e, com a finura e segurança dos que conhecem e sabem refletir alto, qualifica-se como "náufrago das escolas, no campo, tendo apenas a visão do universo físico, considerando serem os livros "os mestres mudos que ensinaram sem fastio", na magnífica definição de Vieira".

E continua: "e a força de ler os bons livros, aprendi a doutrina de evitar o exclusivismo pessoal e procurar ser o homem político, a serviço de minha Pátria. Na perseguição deste ideal, vós outros, autores alagoanos, balizastes a minha caminhada pelas manifestações da vossa inteligência, que enriquecem a nossa vida cultural e estimulam a nossa imaginação, na harmonia da forma e na beleza dos estilos que expressam o pensamento e dão curso às idéias."

Discreteando sobre a cultura, conceitua que esta "assim como a política, sendo mulher, adora os que ousam e isto me faz lembrar, sempre, o branco, tristonho e platônico Pierrot do poeta Juca Mulato, que ainda hoje se arrepende do preço imenso pago aos seus desejos por nunca ter ousado beijar a Colombina".

Depois de confessar ser aquela recepção o maior dia do seu governo, pelos sortilégios e encantos das letras sobre o coração, declara enfaticamente: "na trajetória da minha vida pública não cultivei o hábito de escrever o meu nome nas paredes de algum monumento arquitetônico, querendo, assim, associá-lo às obras artísticas que pertencem a todos os tempos e são patrimônio de todos os homens, mas alimento a esperança de escrever um livro, já que plantei uma árvore e os netos ajudam-me a envelhecer sorrindo".

Suas notas de infância contam a história de um período de indecisões, órfão com poucos anos de vida, sentindo, no tumulto de uma difícil compreensão, alguma coisa complexa e não muito inteligível de conduzir uma família, permitindo mesmo que estas reflexões se fixassem em algo de sobrenatural e abrindo um desconhecido caminho de substituir o pai.

E culminando essa estranha responsabilidade com a alegria incontida que viveu, ao casar a última irmã, sentindo-se invadido por um estranho sentimento de magia e sonho. Espírito inquieto, no velho Colégio Diocesano, aos quinze anos, mostrou as primícias de uma constituição psico-ativa de tendência eminentemente viril, quando inconformado com uma punição que não havia merecido, fugiu do venerando educandário. Foi os que os psicologistas, talvez, considerassem como sendo um momento estelar de uma personalidade que se plasmava, fiel a princípios que não conhecia de justiça, compreensão e solidariedade. No meu colégio, o mesmo Diocesano, muitos anos antes, nunca esqueci ter ousado também, num gesto que me pareceu de coragem infinita ao reagir sem conhecimento ou reflexão a uma atitude que se caracterizava como punição sem fundamento.

Leu Karl Marx, acreditou que naquelas difíceis concepções filosóficas, sociais e políticas estava a felicidade dos povos para evoluir pelo estudo e maior conhecimento, adotando uma capacidade crítica indispensável a um conhecimento social mais consentâneo com a democracia e a solidariedade humana.

O vigor de uma inteligência vivaz, que admirável intuição realçava, assegurou ao homenageado desta noite uma liderança excepcional, mantida durante longos anos, evoluindo da denominada esquerda para o compreensivo remanso dos anos vividos pela integração em busca de análises sociológicas e políticas mais confiáveis.

A tradicional e entusiasta paixão dos primeiros anos não arrefeceu totalmente, mesmo na posse dos altos encargos da vida política e partidária, sob a égide de partidos democráticos, a se desenvolverem no país, permitindo-lhe uma análise fria e serena, compatível com os princípios de liberdade, compreensão e solidariedade.

Logo saído da adolescência, envolveu-se em atividades produtivas, conseguindo de logo um conceito de liderança promissora. De agricultor modesto que era, foi sensível ao sortilégio da política. Fez-se Prefeito de São Luiz de Quitunde e fiel aos seus critérios pessoais e responsabilidade social e compreensão surpreendeu a todos pela moderação e firmeza que lhe permitiram rápida ascensão e o fazendo dentro de uma ética irrepreensível que uma finura e malícia excepcional respaldavam. E o jovem órfão de ontem, tornou-se uma figura confiável de líder que surgia animosa, encaminhado-se para as atividades legislativas do Estado. Mas os sonhos de um amanhã iluminado eram uma espécie de premonição. E silenciosamente, sigilosamente mesmo, adquiriu uma garrafa de champagne, na esperança de abrí-la no dia em que chegasse ao governo.

Os sonhadores propósitos realizaram-se, mas a enologia francesa não garantiu, decênios transcorridos, a integridade do produto para a afetiva e ambiciosa demanda. E, assim, o jovem governador não brindou ao triunfo consagrador. No Legislativo, Lamenha consolidou uma posição invejável de líder, possuidor das melhores qualidades de sensatez e habilidade política, ao lado de excepcional comportamento ético, granjeando acima dos partidos e facções a confiança geral, através de sucessivas reeleições para a Presidência do Poder Legislativo Estadual.

O ruidoso episódio tão explorado e muitas vezes distorcido nas avaliações, por múltiplas correntes políticas, sobre lamentável confronto ocorrido na Assembléia, pode ser serenamente avaliado como uma atitude de defesa de princípios éticos, mesmo com sacrifício da própria existência.

A transição política brasileira, determinada pela Revolução de 1964, realizou-se nas Alagoas com o equilíbrio possível pela criatividade do hábil Presidente do Legislativo, procurando preservar direitos, conciliar distensões, fortalecendo um saudável "esprit de corps", valioso por todos os títulos para os envolvidos no processo. Somente os que viveram o difícil período podem saber os percalços a vencer.

Alta credibilidade e hábil sentido de interlocução eram exigidos no interesse de preservar os possíveis direitos e liberdades públicas. Hoje, consolidadas as representações democráticas nos parlamentos, é difícil ao pesquisador um julgamento irrepreensível, tamanhas as variedades de ações e reações em jogo, exaltadas as atividades pela rigidez de alguns executores da transição revolucionária e somente uma figura firme, hábil, de alta confiabilidade, poderia, sem quebra dos princípios éticos, realizar a difícil tarefa de salvar reputações e mesmo a liberdade pessoal.

E neste clima, Lamenha Filho soube bem conduzir as delicadas negociações, procurando preservar a autonomia do Poder Legislativo e própria liberdade de alguns dos seus membros mais visados pelo poder dominante. Esta imagem de liderança tornou-se legenda na década de 60 e nos períodos seguintes, fazendo entrever a perspectiva de uma assunção ao Governo do Estado.

Realizaram-se os augúrios e, após honrosas manifestações dos protagonistas do processo, foi indicado com elevados sufrágios, no considerado Colégio Eleitoral da época como candidato ao Governo do Estado. Eleito, procurou conciliar as correntes políticas, mas assegurando salutar independência nas decisões de composição do governo que se propunha a realizar e efetivou com grandeza e firme integração, no interesse do desenvolvimento do Estado.

A atitude austera do novel governador, sua tradição de homem público experiente no trato das leis e do direito público foram substrato para a integração da estrutura governamental que se corporificaria, no interesse do desenvolvimento estadual.

Com saudável liberdade e independência, convocou técnicos para o difícil trabalho que se entrevia, assegurando, simultaneamente, o prestígio e a compreensão dos componentes de entidades de organizações políticas. Com profunda austeridade, espírito público e fiel execução dos princípios estabelecidos para a administração pública o Estado conheceu um período de equilíbrio, segurança e relevo social, para benefício comum.

Se foi um provedor atento das atividades produtivas e de desenvolvimento, as ações de ordem social e cultural mantiveram integral dedicação no interesse da paz e felicidade social. Granjeou confiança, cuidando dos direitos do cidadão, mantendo integral entendimento com os demais poderes, para mostrar aos alagoanos a vigorosa capacidade de trabalho e progresso do seu povo, voltando-se, dentro de uma programação planejada e integrada, a propelir o desenvolvimento do Estado.

Patrocinou, um dia, os interesses da juventude na busca do direito de estudar e pôde, pela habilidade com que se conduziu, declarar enfaticamente que todos os alagoanos se integravam ao poder público estadual para solução da problemática em estudo. E assim surgiu a Escola de Ciências Médicas, dentro das melhores técnicas de ordem pedagógica, funcional e científica, realizando, como novidade na época, uma respeitável integração docente-assistencial.

O equilíbrio social, econômico e político do Estado tornou-o conhecido nacionalmente. Seu governo, pela minha palavra, pôde um dia dizer, em São Paulo, na Federação das Indústrias do grande Estado, que Alagoas não realizava a política da mão estendida, que avilta e humilha, mas participaria de cooperação responsável, no interesse do desenvolvimento do país.

Embora apegado ao torrão natal, conquistou relevo nacional, credibilidade nos centros do poder e participando com positiva liderança do selecionado grupo político de governadores do Nordeste que na Sudene procuravam consolidar o desenvolvimento desta tão sofrida região.

Ao término do mandato, participou, com discrição, do processo sucessório estadual, encaminhando ao Presidente da República, por intermédio do Ministro Rondon Pacheco, vindo especialmente a Alagoas para este fim, as sugestões que considerou válidas para o desenvolvimento do Estado. Foi diversa a solução presidencial e com a maior inteireza e compreensão autorizou uma serena e democrática transição do poder.

Os alagoanos conheceram, nesta altura, a envaidecedora posição do Estado de Alagoas, nas suas múltiplas atividades de ordem econômica, financeira, social e política. Retornou ao remanso tranqüilo da posição de cidadão, estimado, respeitado e exaltado pela obra excepcional de governo que realizara.

Político hábil e competente, continuou participando da vida político-partidária e, enquanto isso, as especulações sobre os nomes de possíveis titulares para o parlamento nacional, como representantes de Alagoas, alteando-se.

Com a sua aguda percepção dos problemas da política brasileira e estadual, pôde sentir um sutil redirecionamento de conduta na política do Estado com a insinuação de uma desconhecida condição de "marechalato político" que apressou-se em denunciar, dizendo não o empolgar, mas ser do seu agrado a posição de soldado combatente. Lançou no tabuleiro das discussões uma profunda exegese sócio-política, anunciando que nas democracias o que se desenvolve é a capacidade de persuadir, a de ouvir e não a de impor.

E com a autoridade reconhecida pela ação e pelo exemplo, aconselhou à classe política que deve se sentir preparada para enfrentar o desafio que o desenvolvimento tecnológico impõe ao mundo dos nossos dias. Só acreditamos no êxito de nossa participação nos quadros dirigentes da sociedade moderna se o culto da popularidade não de sobrepor a uma ação planejada, em que a técnica e o estudo aconselhem as medidas. E vaticina: "Os técnicos fazem o governo das coisas e os políticos o governo dos homens". E conclui essa premonitória reflexão: "Sem transigir com a correção e os abusos do poder político, o governo de um político que se cercou de técnicos, assegurou ao partido uma das maiores vitórias eleitorais nos campos municipal, estadual e federal". Era uma linguagem nova que se fazia ouvir, anunciando preocupações.

E o vitorioso de ontem não aceitando o dúbio comportamento, revestiu-se da compleição integral necessária para o exercício da cidadania, olhando o evolver das vagas e o ruído das ondas revoltas. Retorna ao Coronha dos seus afetos; não esqueceu nunca na fase angustiosa da recuperação econômico-financeira do seu único patrimônio a cooperação espontânea de Tércio Wanderley, emprestando-lhe um trator para as ações iniciais do amanho da terra e emocionado, recordando sempre o mérito da solidariedade desinteressada.

Integra-se no perfil do produtor agrícola a lutar pela restauração do patrimônio. Face o conhecimento excepcional de que dispunha, credenciou-se de logo como liderança surgente das atividades canavieiras. Passou a freqüentar a grande indústria que adquiria seu produto e culmina a transfiguração nos encantos, que considerava deliciosos, nas vindas semanais a Maceió e participar das reuniões do original consulado anglo-penedense de Mário Leahy, a discutir os múltiplos problemas do Estado e da Cidade, esclarecendo, orientando e, às vezes, conduzindo. Como se não bastasse, espontaneamente implantou-se aos domingos um "senado" sui-generis de amigos das mais diversas origens sociais, econômicas e culturais, naturalmente heterogêneo nos conceitos, mas uniformes no apreço e na estima acolhedora do anfitrião.

Abandonando às vezes, no auge das conversações, a inata discrição, revelava a altitude do seu espírito, orientando e informando nesse ambiente ameno, pleno de compreensão e liberdade, opiniões expressivas do maior interesse público. Seus aniversários no Coronha, sempre louvado e estimado, tornaram-se acontecimentos sociais da mais alta expressão, aglutinando correntes políticas de todos os matizes, titulares das múltiplas atividades sociais, em meio aos amigos, sempre fiéis à amizade respeitável e às presunções de um retorno triunfal se manifestando, muitas vezes sem reservas, tamanho o poder da esperança que representava. Na euforia da recepção, num dos aniversários, seu grande amigo Carlito Lobo, ante o volume de convidados presentes, exclamou: "Vou fazer a chamada, para ver no próximo ano quem cultiva a fidelidade e a compreensão !"

Nos vários grupos sociais tornou-se referência expressiva pelas sugestões excelentes, plenas de uma finura e malícia exemplar na análise de homens e de episódios sociais e políticos.

Esta figura de homem público e cidadão, que conhecera o fastígio do poder como a planície em que se movimenta o homem do povo, em meio à pluralidade da vida intensa e dignificante não dispensava o encanto, a sabedoria e o mérito da vida intelectual, o culto santificado da família, sobrepondo-se a todos os percalços que o destino pode determinar aos homens.

O amor à arte, à beleza e à perfeição eram presentes sempre nos seus estudos e demonstrações de erudito. Seu discurso de instalação do Conselho Estadual de Cultura é modelo de estilo literário, vibrante e castiço, revelando o domínio das letras e da cultura. Aqui, dileto Lamenha, em meio aos livros que tanto o acompanharam nas noites insones e nos períodos de inquietação, falando-lhe de beleza, de estesia, de angústias e de dificuldades, é realmente o seu lugar, o lugar do Governador que amava as letras.

 

A foto registra a presença da familiares, inclusive filhas, do homenageado, Governador Lamenha Filho, na inauguração da Biblioteca Governador Lamenha Filho

                                                    Parte do Salão de Leitura

 

Momento no qual o Professor Jayme Lustosa de Altavila, presidente do IHGAL, e organizador da Biblioteca governador Lamenha Filho explicava aos presentes a origem da biblioteca, ainda na presidência de Carlos Moliterno, que dou grande parte do seu acervo particular, e como ela foi reorganizada com fins a um atendimento ao público externo.

 

Presente à solenidade o Senador Teotônio Vilela Filho, que recebeu o título de Sócio Benemérito, por serviço prestados a Academia Alagoana de Letras, com o Presidente Ib Gatto Falcão, num flagrante nas dependências da biblioteca. Na homenagem aos Sócios Beneméritos, Senadores Renan Calheiros e Teotônio Vilela Filho, o empresário Vitor Vanderley.e Deputado Estadual Rogério Teófilo. Falou o sócio Humberto Cavalcante, num saudação brilhante e oportuna, que aqui reproduziremos logo a matéria seja digitada.

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