Conjunto de estátuas ( hermas ) e sua provável origem, no texto de Ib Gatto e Enaura Quixabeira

                                          

 

 

Arte e história se entrelaçam para resgatar a História

Ib Gatto Falcão

Enaura Quixabeira Rosa e Silva

 

Construir o povo não é somente uma das necessidades de nosso tempo, é também um grande e imperioso dever de todo governo que pretende as recomendações da história e as flores da estima pública.

Cincinato Pinto

 

 

 

           

A construção de mais um andar no Edifício Ib Gatto Falcão, complemento das instalações da Academia Alagoana de Letras, permitiu que melhor observássemos as esculturas que encimam o centenário prédio sede dessa veneranda instituição. Esculpidas em mármore branco testemunham a importância que se atribuía, na Província das Alagoas, à instrução pública no século XIX.

            O prédio, situado entre as ruas do Livramento e Nova, atual Barão de Penedo, no Campo das Princesas, hoje, Praça Marechal Deodoro da Fonseca, foi construído durante a gestão de Cincinato Pinto da Silva que, em relatório de despedida ao passar a administração ao 3º Vice-presidente – Hermelindo de Barros Pimentel –, em 15 de julho de 1880, a ele se refere na página 4 como: “primeiro edifício público destinado à instrução primária; edifício que, se de algum modo fará lembrado o meu nome nesta Província, assinalará sem dúvida alguma a generosidade, o patriotismo, dos ilustres cidadãos que concorreram para a sua edificação”. Gesto concreto de generosidade e responsabilidade social dos membros da sociedade alagoana, imortalizado na inscrição do frontispício: “O Povo, à Infância” - 1879.

            Ainda na p. 4 de seu relatório, Cincinato Pinto alude à encomenda que fizera de três bustos em mármore – de S. M. o Imperador, do Exmo. Sr. Francisco Inácio Carvalho Moreira, Barão de Penedo e do Exmo. Conselheiro João Lins Vieira Cansanção de Sinimbú, Visconde de Sinimbú –, que almejava colocar em um dos salões da referida escola assim que chegassem da Europa onde haviam sido encomendados. Ocorre-nos a curiosidade especulativa de identificar o artista autor desses trabalhos e o destino que essas obras artísticas tiveram ao chegar ao Brasil, ou mais precisamente, às Alagoas.

            Raul Lima, em conferência pronunciada em sessão do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, em 2 de dezembro de 1972, traz a lume informações preciosas sobre esse assunto através de correspondência entre o ilustre diplomata penedense, Barão de Penedo, e a dama do Império, Luísa Margarida Borges de Barros, Condessa de Barral (título advindo de seu casamento com um nobre francês) e Condessa da Pedra Branca (título honorífico herdado de seu pai visconde e diplomata), que, segundo ele, pelo excelente exercício do gênero epistolar a membros da família imperial, foi chamada de a Madame de Sevigné brasileira.

O verbete do Dicionário Mulheres do Brasil retrata a Condessa de Barral como uma senhora nascida na Bahia, de ilustre família, e educada na França. Aos quarenta anos, reconhecida por sua capacidade intelectual e refinamento, dominando a etiqueta das cortes européias e fluente em várias línguas, foi convidada por D. Pedro II para ser a preceptora das princesas Isabel e Leopoldina e dama de companhia da imperatriz Teresa Cristina. O

Imperador apreciava o espírito inteligente da Barral e cultivou, com ela, uma longa amizade.

A partir desses dados, ganha força a afirmativa da condessa, em carta datada de 22 de outubro de 1880, ao amigo Barão de Penedo, citada por Raul Lima: “corri, [...] à oficina de M. d’Epinay e lá tomei minha satisfação a V. Exa. diante de um busto a que só faltava a palavra para parecer vivo”. A resposta de Penedo confirma a autoria da escultura quando menciona ter recorrido ao “Phidias Français” da Via Sistina por não haver na Província, segundo o Presidente, escultor capaz de executar o trabalho artístico.

O epíteto usado pelo Barão de Penedo legitima o nome de d’Epinay, francês, e, muito provavelmente escultor renomado para merecer ser comparado a Phidias, maior escultor do mundo grego, nascido em Atenas aproximadamente em 431 a.C. e responsável pelo conjunto de esculturas que ornamentavam o Panteão, o templo da deusa Atenas, de valor inestimável e que se encontram, hoje no Museu Britânico, de Londres.

A verdade é que os bustos ficaram prontos, mas não se destinaram à escola como havia sido o desejo de Cincinato Pinto, em conseqüência, diz Lima, talvez da descontinuidade administrativa. O de Pedro II ocupa o centro da Praça Pedro II (praça da Catedral como a chamam os alagoanos) e o do Barão de Penedo encontra-se segundo Lima, no museu do Itamarati adquirido da viúva de um dos netos de Penedo, o Sr. Andrade Pinto. Repousando majestático sobre uma coluna de mármore vermelho-negro, ostenta a seguinte inscrição: “Busto do Barão de Penedo – De mármore branco retrato do Barão de Penedo. Ass. P. D. Epinay – Roma 1874 [...] Escultura nº 11”.

Apraz-nos imaginar que ao mesmo artista ou a discípulos de seu atelier deve-se a autoria das outras esculturas –conhecidas como hermas – ainda anônimas, pois carecem de uma identificação mais pertinente –, que, imutáveis, conferem ao prédio da Academia Alagoana de Letras uma majestade serena, afrontando os anos e desafiando os homens.

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